A escrita misteriosa

O primeiro texto oficial conhecido em língua portuguesa, o testamento de D. Afonso II, foi escrito há oito séculos, a 27 de junho de 1214. A primeira manifestação de escrita da Península Ibérica de que há conhecimento remonta, no entanto, ao período da I Idade do Ferro, entre os séculos VII e V a.C..

Os vestígios desse sistema de escrita, batizado de Escrita do Sudoeste, encontram-‑se dispersos por uma região muito vasta que abrange os territórios da Andaluzia e Extremadura até ao extremo ocidental da costa portuguesa, concentrando-se a maioria dos achados na área serrana entre o Baixo Alentejo e o Algarve. Os vestígios encontrados até ao momento, cerca de uma centena em todo o território da Península, são na sua maioria estelas funerárias, ou seja, blocos de xisto com inscrições gravadas destinados geralmente a serem colocados ao alto nas sepulturas.

Do ponto de “vista patrimonial e nacional”, a existência de vestígios epigrafados com a Escrita do Sudoeste, diz o arqueólogo e professor da Universidade de Letras da Universidade de Lisboa Amílcar Guerra, “é um fenómeno muito fora do comum”, que coloca Portugal “como um dos países detentores de uma das mais antigas escritas da Europa”, escrita “que é contemporânea da escrita etrusca, por exemplo, e um pouco posterior à escrita grega antiga”. “É um fenómeno extraordinário. Este território é pioneiro no desenvolvimento de um sistema de escrita”, reforça o investigador, realçando que existem, contudo, “dúvidas muito grandes” em relação à data em que se terá começado a usar esta escrita, de influência fenícia. Segundo o também conselheiro científico de uma das exposições patentes no Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar (MESA), o mais comum é situar o seu uso “entre os séculos VII e V a.C.”.

Existem, no entanto, defensores “de uma cronologia mais avançada para o começo e outros que sustentam ainda que ela poderá ter-se prolongado algo mais”. Quanto às populações que a terão usado, continua o investigador, são apontadas “quatro entidades” a que aparece associada: os Tartéssicos ou Tartessos, daí que também seja designada por “escrita tartéssica”; os Turdetanos, “que para alguns são a mesma coisa que Tartéssicos”; os Cónios; e os Célticos. Amílcar Guerra tem vindo a defender ultimamente que se se considerasse a Escrita do Sudoeste “pertencente ao núcleo céltico, compreenderíamos melhor a razão pela qual ela tem esta distribuição geográfica e a razão pela qual as realidades arqueológicas que lhes andam associadas têm falta daqueles elementos que são mais tipicamente tartéssios ou turdetanos”, justifica.

O facto de a maioria dos vestígios ter sido encontrada fora do seu contexto de origem, aparecendo, em muito casos, reutilizada em outras necrópoles “mais tardias” tem trazido uma dificuldade acrescida aos trabalhos de investigação. A estela das Mesas do castelinho, por exemplo, que se destaca por ter a inscrição mais extensa dessa escrita (86 caracteres), foi encontrada em 2008 pela equipa liderada por Amílcar Guerra e pelo colega Carlos Fabião durante a campanha de escavações no sítio com o mesmo nome, na freguesia de Santa Clara-a-Nova (Almodôvar), “numa realidade arqueológica muito mais tardia, uma realidade romana”, o que poderá indicar que “no próprio sítio das Mesas do castelinho, ou nas proximidades, existirá algo contemporâneo da estela”, esclarece o professor. Outros vestígios “aparecem com uma reutilização moderna num sítio qualquer ou então dispersos, perdidos no meio do campo, às vezes à superfície sem nenhuma função visível”, continua.

Por tudo isto, e também porque os achados epigrafados, sobretudo as estelas, são escassos e apresentam-se na sua maioria “fragmentados”, “com sequências contínuas muito pequenas” e “sem divisões de palavras”, decifrar a Escrita do Sudoeste revela-se uma tarefa complicada. De acordo com Amílcar Guerra, “de uma forma geral a única coisa que costumamos dizer é que alguns autores reconhecem sequências onomásticas correspondentes a nomes de indivíduos. Há ainda um conjunto significativo de caracteres que não sabemos qual é a sua equivalência fonética”. O investigador realça que são raros os casos em que as pedras aparecem praticamente intactas, como é o caso da já mencionada estela das Mesas do castelinho.

“Não vai ser fácil decifrar esta escrita. Se tivermos em conta o ritmo de aparecimento de estelas ultimamente, depois do grande incremento que sofreram nos anos 70 com Caetano Beirão (ver caixa) e de um novo incremento que sofreram com a nossa vinda [em finais dos anos oitenta do século passado] para aqui para trabalharmos nesta área e de alguma atividade que realizámos de pesquisa também esporádica, não vai ser fácil.

São raros os novos achados e com tão pouco material, em estado tão fragmentário, quando se colocam tantas dificuldades, penso que o mundo científico não terá coragem de avançar facilmente para uma solução a breve prazo”, defende Amílcar Guerra, realçando que alguns autores têm aproveitado para propor interpretações novas, “mas são sempre interpretações que não adiantam nada, que não têm consistência histórica”. “Eu não invisto nisso porque não acredito que seja possível resolver o problema.

O conjunto de dificuldades é tão grande e de diversa natureza que não temos condições para dar uma resposta neste momento fiável e rigorosa a esse problema. Que língua é que está ali representada e depois como é que se pode traduzir essa língua”, adianta o arqueólogo, que defende que a prioridade deve passar por investir na vertente arqueológica, porque “seria muito interessante definir com rigor o contexto arqueológico, descobrir novos monumentos”. “É muito errado andar só a estudar a escrita sem compreender depois os outros restos materiais que andam associados a essa escrita. Nós temos de compreender o fenómeno globalmente, não o fenómeno por partes, desligadas”, conclui.

Projeto Estela quer perceber contextos arqueológicos Opinião semelhante tem Samuel Melro, arqueólogo da Direção Regional de Cultura (DRC) do Alentejo e um dos responsáveis pelo projeto de investigação Estela, conjuntamente com Amílcar Guerra, Pedro Barros e Susana Estrela, projeto esse que nasceu em 2008, na sequência da criação do Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar, precisamente com o objetivo de “dar rosto às pessoas que usaram a Escrita do Sudoeste”. “Andamos à procura dos contextos e das realidades dos povos que usavam essa escrita. O objetivo é contar um pouco as histórias das pedras epigrafadas que se encontram no museu, tentar caracterizar os locais de proveniência das mesmas”, explica o investigador, salientando que a exposição “A vida e a morte na Idade do Ferro”, patente no museu, “resulta precisamente de trabalhos no âmbito do projeto Estela”.

A primeira prospeção decorreu até 2010 na Necrópole da Abóbada, na freguesia do Rosário, Almodôvar, onde em 1972 foi encontrada a estela do Guerreiro (foto de capa), o símbolo do MESA e que se destaca por ser “uma das poucas com uma representação”. “Assumimos logo que a nossa primeira responsabilidade era contar devidamente a história do local onde ela apareceu e intervencionámos uma necrópole que estava bastante afetada mas não encontrámos mais nenhuma estela. Mas permitiu-nos um pouco caracterizar o tipo de enterramentos e o tipo de cemitérios que ali tínhamos”, diz o investigador. No concelho de Loulé, no decurso de prospeções efetuadas, já foi possível encontrar uma nova estela, a de Corte Pinheiro.

Atualmente está a decorrer, não muito distante da Necrópole da Abóbada, a terceira campanha de escavação na Portela da Arca, “um pequeno monte alentejano, da Idade do Ferro, com 2 500 anos, e onde morariam as pessoas que tiveram contacto com esta escrita”. No próximo ano, muito provavelmente, terá lugar a quarta campanha naquele povoado da Idade do Ferro e serão iniciados trabalhos de prospeção “em outros locais associados a estes contextos”. “Acho que a investigação, não descurando a sua responsabilidade em dar um retorno social, tem pernas para andar. Portanto estou em crer, e sobretudo conhecendo as sensibilidades dos municípios que apoiam o projeto [Almodôvar e Loulé] que não nos falta trabalho daqui para a frente, isso não faltará certamente”, considera Samuel Melro.

A par deste trabalho, o projeto Estela, que conta ainda com a colaboração da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vai continuar a associar-se a outras iniciativas, como passeios pedestres ou exposições, “para que a Escrita do Sudoeste possa servir como chamariz para o turismo cultural”, uma vez que o facto de ser uma escrita “ainda indecifrável”, algo “misteriosa”, acaba por ser “um atrativo”. Nesse âmbito, em colaboração com a Câmara Municipal de Loulé, o projeto Estela inaugura hoje, dia 1, em Quarteira, a exposição de rua “Quem nos escreve desde a serra – a Escrita do Sudoeste e a Idade do Ferro no Concelho de Loulé”, que “muito provavelmente irá também percorrer outros concelhos vizinhos, quer alentejanos quer algarvios”, revela o investigador.

“Não há qualquer dúvida de que a Escrita do Sudoeste, cujos achados epigráficos se concentram em maior número aqui na região interior e serrana, entre o Baixo Alentejo e o Algarve, é única e algo completamente diferente das restantes realidades arqueológicas e históricas aqui do Sul. Quando escavamos realidades da Idade do Ferro, mais ou menos coevas, na região de Beja, por exemplo, por causa de Alqueva – e são escavadas grandes áreas – não aparece um único fragmento de uma estela”, diz o arqueólogo, frisando, contudo, que é neste território serrano que se encontra “a matéria-prima, o xisto, que na região de Beja não existe”.

 O signário de Espanca 
 O signário de Espanca, encontrado no lugar com o mesmo nome, no concelho de castro Verde, é outro dos vestígios considerados de extrema importância, uma vez que a pequena laje com cerca de 40 centímetros de comprimento “conserva uma gravação, em duas linhas de caracteres bastante reduzidos”, uma “de traço mais profundo e firme e de caracteres mais regulares; outra mais ténue e irregular”. “Este achado é importante porque é um exercício de escrita, em que o mestre desenhou o signário e um aluno, por baixo, foi copiando”, diz Samuel Melro.

Amílcar Guerra salienta, por sua vez, que a grande vantagem “é conter todos os signos [por uma determinada ordem] que faziam parte do sistema de escrita, 27”: “Estamos perante aquilo a que chamamos um sistema semi-silabário, isto é, por um lado tem signos que valem sílabas e por outro tem signos que valem vogais ou consoantes isoladas”.

 As primeiras notícias sobre a Escrita do Sudoeste em território nacional devem‑se a frei Manuel do Cenáculo, primeiro bispo de Beja, entre 1770 e 1802. De acordo com o catálogo de uma das exposições patentes no MESA, “o bispo recolheu, estudou e mandou desenhar um conjunto de monumentos, geralmente lápides sepulcrais, que identificou durante a sua missão episcopal”. No último quartel do século XIX dá-se “um novo impulso ao conhecimento destes monumentos, em particular pelos novos achados de que dão notícia António dos Santos Rocha e Estácio da Veiga”.

José Leite de Vasconcelos, no início do século XX, e Fernando Nunes Robeiro, nos anos 60, desenvolveram também investigação na área. A descoberta “do maior número de estelas e o empenho na divulgação destas manifestações epigráficas ficaram a dever-se especialmente a Caetano Beirão, que, a partir dos anos 70, do século passado, dedicou boa parte da sua vida a este domínio da investigação”.

Fonte: Diário do Alentejo - [Texto Nélia Pedrosa Fotos José Ferrolho] Leia na origem »»
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