Isabel Cordeiro deixa direcção do Património devido a “divergências profundas” de estratégia

Decidiu em Outubro que não iria concorrer ao lugar que ocupa desde finais de 2012. Diz que o seu afastamento nada tem a ver com quebras no orçamento ou número de funcionários. Sai, garante, por uma “questão de lealdade” e por divergências em relação às estratégias para o património.

Fotografia: Jornal Público
Até que chegue a nova equipa, Isabel Cordeiro vai continuar no seu gabinete no Palácio da Ajuda, a reunir-se com os técnicos e a resolver problemas como no primeiro dia. Não sabe ainda quando vai ser substituída como directora-geral do Património, cargo que ocupa há 14 meses e para o qual foi lançado um concurso público a 27 de Dezembro (termina a 10 de Janeiro). O que sabe é que não vai candidatar-se ao lugar, decisão que tomou em finais de Outubro, depois de “grande ponderação”.

“Não foi fácil chegar a esta decisão porque agarrei estas funções com muito entusiasmo e estou muito contente com o trabalho que fizemos até aqui, mas não podia ser de outra maneira”, diz ao PÚBLICO a ainda responsável pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), organismo que tem a seu cargo a gestão directa de museus e palácios nacionais e do património mundial em Portugal, bem como a supervisão de quatro mil imóveis classificados. “Há divergências profundas em relação às estratégias para o património”, garante Isabel Cordeiro, sem querer dar exemplos concretos e afastando qualquer “desentendimento pessoal” com o actual secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. “Digo apenas que saio por uma questão de lealdade para comigo e para com o projecto que quis construir com as equipas desta casa. As divergências são exclusivamente de ordem técnica e têm a ver com aquilo que entendo serem as competências da DGPC e as suas linhas de actuação”, acrescenta, escusando-se a comentar as opções da tutela para o sector.

O concurso para esta direcção-geral – a maior da Cultura, com 865 funcionários e um orçamento previsto de 33,1 milhões de euros – foi dos últimos a abrir na área da cultura antes do fim do ano. Falava-se já há semanas na eventual saída de Isabel Cordeiro e na possibilidade de esta estar ligada a uma diminuição drástica da dotação do Orçamento do Estado (OE) de 2014 para o património e num corte de 142 trabalhadores dos quadros da DGPC, cenário avançado no início de Dezembro pela Frente Comum (CGTP).

“A saída dos trabalhadores não tem qualquer relação com a minha decisão”, diz a directora-geral, garantindo que, até ao momento, não foi informada de qualquer quebra no número de funcionários. Quanto à redução dos dinheiros a investir no património, também não é motivo: “Claro que ninguém gosta de saber que o organismo que dirige vai sofrer cortes, e ainda menos quando esses cortes são no orçamento de funcionamento, que por regra está no limite. Mas eu estou habituada a trabalhar com muito pouco, a uma gestão absolutamente espartana dos recursos.”

Balanço positivo Na entrevista que deu ao PÚBLICO, em Fevereiro de 2013, quando estava apenas há três meses em funções, Isabel Cordeiro dissera já que um dos grandes desafios da então nova DGPC – direcção-geral que no quadro da reforma da administração central veio a agrupar museus e monumentos – era a de criar equipas coesas e polivalentes, capazes de competir por fontes de financiamento alternativas: “A suborçamentação crónica é uma tendência da última década. Não podemos continuar a trabalhar a pensar na dotação do OE”, defendeu na altura, reconhecendo que gostaria de ajudar a construir um cenário diferente para o património para a década seguinte. O fim de 2012 fora marcado por uma maratona de classificações que estavam pendentes, algumas há décadas, e Cordeiro definia-se como uma pessoa “incorrigivelmente optimista”, que nunca separava o património da memória e da identidade, associando-o muitas vezes ao universo dos afectos, que é tão importante, defende, como tornar evidente a relevância artística de um mosteiro, de uma fortaleza ou de um sítio arqueológico.

Onze meses depois esse optimismo desapareceu? “Não”, diz. Dirigir a DGPC foi “desafiante”, mas nunca mais difícil do que inicialmente esperava: “O balanço que faço é muito positivo. Tive o meu trabalho facilitado pela capacidade das equipas e pelo seu sentido crítico. Depois de tantos anos no património, sabia bem ao que vinha.” Cordeiro tem 47 anos e está há 23 entre monumentos e museus. A dimensão da casa que liderou nos últimos 14 meses, assim como a diversidade do património à sua guarda, “acrescentou complexidade” à sua função, “mas nunca foi um problema”.

“A resiliência das equipas”, o trabalho dos grupos de amigos e os apoios mecenáticos que foram surgindo num ano muito difícil e que permitiram dar continuidade à valorização de alguns monumentos e garantiram programação nos museus são três dos pontos positivos a salientar, segundo a directora. A concretização no terreno do processo de fusão que deu origem à DGPC, que à sua chegada estava ainda apenas no papel, foi outro, ao qual se associou a conclusão de intervenções nos mosteiros da Batalha e de Alcobaça, no Convento de Cristo, em Tomar, e nos museus do Traje e de Arte Contemporânea, em Lisboa; assim como o início das obras nas fachadas e cantarias do Palácio Nacional da Ajuda, também em Lisboa, ou a candidatura do restauro dos carrilhões do Convento de Mafra a programas de financiamento nacionais (Fundo de Salvaguarda do Património) e estrangeiros (Europa Nostra, com o apoio do Centro Nacional de Cultura, e World Monument Fund).

“Ficou muito por fazer, certamente, mas ainda há tempo para resolver algumas coisas. Não sei quando vou fechar a porta do gabinete.” Isabel Cordeiro também não sabe o que se segue: “Não tenho planos. Só estou a pensar no que estou a fazer.”

Contactado pelo PÚBLICO a propósito da saída da directora-geral, o assessor de imprensa de Barreto Xavier disse apenas que “o secretário de Estado da Cultura não comenta procedimentos de concurso público durante o curso processual”.

Com o concurso para o cargo de Cordeiro abriram também os para os quatro lugares de subdirectores da DGPC. Um deles é o de director do Museu Nacional de Arte Antiga, que é hoje ocupado por António Filipe Pimentel. O historiador de arte vai candidatar-se.

Fonte: Jornal Público
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